Fadumo Dayib

 

A vida de Fadumo tinha tudo para ser uma tragédia. Tudo menos o seu consentimento.

 

 Filha de pais deportados, fugitiva de uma guerra civil e refugiada na Europa, é agora uma especialista em saúde pública e ativista premiada, a primeira mulher a exercer o cargo de Diretora Nacional da ONU na Somália, com três mestrados (um deles em Harvard) e a terminar o doutoramento na Universidade de Helsínquia. Ah, e candidata à Presidência da República.

 

Se alguém merece o título de Life Rebel, esse alguém é Fadumo Dayib. Carinhosamente conhecida pelo povo da Somália como Deeqo (que significa “dádiva” em português), o caminho de Fadumo foi traçado a passos de vontade férrea.

 

A sua mãe foge da Somália para Thika, no Quénia, em busca de melhores condições sanitárias após perder não menos do que onze filhas e filhos às mãos de doenças que seriam de outra forma evitáveis. O pai de Fadumo é camionista. Aliás, é o camionista que aceita dar boleia à mãe de Deeqo, acabando os dois por casarem-se durante a viagem para o Quénia. Ali nasce Fadumo Dayib em 1972.

 

A família Dayib sobrevive na pobreza, sem grandes chances de suportar os estudos da pequena Fadumo e dos seus dois irmãos mais novos, mas a sua fome de conhecimento fala mais alto. Os pais eram ambos iletrados mas tenazes, e compreendiam perfeitamente o valor da educação. O seu pai falava várias línguas e a mãe trabalhava arduamente a vender chá na berma da estrada, tudo para conseguir que os seus filhos tivessem o privilégio da escola.

 

Aos onze anos Fadumo aprende a ler, e rapidamente compensa o tempo perdido cumprindo todos os graus de escolaridade que lhe faltavam em apenas cinco anos. Aos catorze anos, sonha ser representante das Nações Unidas no Quénia. Todos os Sábados vai com a mãe “visualizar o seu sonho”. Ficam ambas defronte do portão do edifício da ONU, ambas a convencerem-se de que sim, era possível. A vida não era fácil, mas era possível. Até que deixou de ser.

 

Em 1989, os Dayib são deportados do Quénia e forçados a voltar a Mogadíscio, na sua terra natal da Somália. Todo o país está envolto em tumultos. Vivem-se os dias finais da ditadura, e o regime está a agarrar-se ao poder com a força do desespero. A escolaridade de Fadumo e dos irmãos termina abruptamente. A mãe de Fadumo chega mesmo a ser aprisionada, por suspeitas de envolvimento do seu irmão com grupos que se opunham ao regime. Nem um ano depois, estala a Guerra Civil. A vida deixa de ser possível novamente. É nessa altura que a mãe de Fadumo, já divorciada, decide vender todas as suas posses para conseguir que os três filhos escapem como refugiados.

 

Na Europa, Fadumo não perde o foco. Aterra em Moscovo sem dinheiro, posses, ou saber falar a língua. Tudo o que tem são dois pequenotes famintos e desorientados - os seus irmãos. Com apenas 18 anos, consegue liderar o trio em segurança até à Finlândia, o país que a acolheu desde então, em 1990.

 

Aqui recomeça a sua educação, com um propósito muito claro: voltar a África e cumprir o seu sonho, permitindo que tantas outras meninas como ela sonhem também. Estuda para se tornar enfermeira de cuidados intensivos e termina os seus dois primeiros mestrados: ciências da saúde e saúde pública. Conhece o marido e constitui família. Mas isto não chegava.

 

Em 2005, é chegada a hora. O grito de ajuda do seu país é demasiado alto para ignorar. Fadumo junta-se às Nações Unidas e volta à Somália, deixando a sua família para trás, dizendo apenas “eu tenho de estar lá.” Consigo vai só o seu filho bebé, que ainda tinha de amamentar. A primeira noite é passada bem longe da comodidade que conheceu na Europa, mas Deeqo procura outro conforto: “Na primeira noite dormi profundamente. Sentia-me em casa. Não havia mais do que um colchão, mas foi a melhor decisão que alguma vez poderia ter tomado.”

 

Foca-se na promoção da saúde feminina e na prevenção da transmissão de VIH de mães para filhos, colaborando com a ONU ao estabelecer clínicas por todo o território somali, chegando a exercer o cargo de Diretora Nacional da delegação da ONU na Somália. Após seis meses, tem de ser evacuada do país por questões de segurança. Sem problema - Fadumo aproveita esse intervalo para terminar o seu mestrado em administração pública em Harvard. 

Daí, partiu para as ilhas Fiji e a Libéria, onde estabeleceu clínicas de prevenção contra o VIH e formou profissionais de cuidados de saúde. Também trabalha com o setor privado, em programas de apoio ao emprego a refugiados. Tudo isto, sem nunca deixar o ativismo pela igualdade de género, especificamente contra a mutilação genital feminina em muitos países africanos. Está agora a terminar o seu doutoramento sobre participação governamental e empoderamento das mulheres em sociedades pós-conflito pela Universidade de Helsínquia.

 

Mais de uma década depois do seu retorno à Somália, e depois de ver como a Libéria conseguiu começar a levantar-se da crise humanitária que assolou o país, Fadumo sentiu que ainda não era suficiente. O que faltava? Candidatar-se à presidência do seu país.

 

Quando se apresenta como candidata, Fadumo sabe que as suas hipóteses são quase nulas. Como tantas outras coisas na vida de Deeqo, a sua candidatura é não só simbólica, mas impactante: “Qualquer pessoa que seja competente e qualificada nunca vai ganhar. Se não és corrupto, não vais entrar no sistema. Eu nunca pagarei um cêntimo a quem quer que seja, portanto a probabilidade de ganhar é não-existente.” 

 

Não se trata de ganhar. Trata-se de mostrar, novamente, que é possível. "Se uma mulher consegue fazer tudo isto, tem todo o direito de governar o país - porque já o está a liderar em tantas frentes" disse Dayib. "Não vamos mais negociar a nossa existência."

 

Fadumo não ganhou em 2016. Mas mobilizou toda uma geração de somalis, de todas as idades, géneros e origens. Fadumo vive agora na sua querida Somália, com o marido e os seus quatro filhos. Mas a história não acaba aqui.

 

Tendo esperado 26 anos para voltar ao seu país, Deeqo não está cansada: “Não tenho dúvidas de que serei Presidente, e posso esperar outros 20 anos, se for preciso. Tudo o que quero é que o meu povo cumpra todo o seu potencial e que exerçam os seus direitos constitucionais”.

 

Fadumo Dayib não é a heroína que a Somália merece, é a heroína que a Somália precisa. Durante todos estes anos Fadumo nunca virou a cara à luta. São incontáveis os desafios que contra tudo e todos ultrapassou. Todos com um propósito comum: eram sempre em prol da sociedade. Ela passou uma vida inteira a mostrar que é possível. Que consegue e está decidida - a sua característica mais marcante - a mostrar que é possível.

Mal podemos esperar para ver Fadumo a presidente!  

 

É maravilhoso ver aparecer, num país que tanto sofreu nas últimas décadas, uma rebelde assim que só com a sua vontade consegue mover meio mundo!

Fadumo, tu consegues!