Fávio Chavez

César estava orgulhoso. Sentou-se no chão, ergueu o olhar e admirou seu trabalho. Demorou a manhã toda para pintar o berçário, mas agora podia sentar-se e fantasiar sobre como o seu filho irá crescer naquele quarto. Qual será o local escolhido para marcar a altura do petiz, onde ficará o berço, qual o comprimento das cortinas?

A sua namorada, Sofia, chegou e sentou-se ao seu lado com o maior sorriso do mundo e uma caixa de pizza.

Almoçaram juntos, imersos em nuvens de felicidade e expectativa pela chegada do pequeno Pablito.

Depois de terminarem esta maravilhosa refeição, eles arrumaram tudo e continuaram a ser felizes.

Pablito nasceu uma criança feliz com um futuro brilhante. O que Pablito não sabia é que, antes de ele nascer, as ações realizadas por sua causa, nomeadamente naquele almoço, transformaram-se em pedaços de felicidade para outras crianças, a quem esta chega de formas mais complexas.

Para ser mais preciso, nossa história de hoje começa no final daquele almoço, durante a limpeza. 

Uma lata de tinta, a madeira que servia de palete para a lata, a bandeja de pizza e um garfo perdido foram descartados entre outros itens.

Estes itens, em particular, ajudam a explicar o trabalho de Fávio Chávez.

O César que apresentamos atrás é uma personagem fictícia, mas o Fávio e o seu trabalho são o mais real que pode haver. O César desta estória vive em Assunção, no Paraguai, e o lixo ali produzido vai primariamente para um local chamado Cateura, o maior aterro sanitário do país. Cateura é também a comunidade que existe à volta do aterro e, como podes imaginar, as pessoas que moram em Cateura vivem com muito pouco. Eles usam o lixo para fazer tudo, inclusive, em alguns casos, as suas próprias casas.

Muitos projetos de reciclagem são feitos em torno do aterro.

Fávio Chávez, engenheiro ambiental, foi designado para um desses projetos. Durante os oito anos que ali esteve, Fávio conheceu a comunidade, a realidade, e viu como era a vida daquelas crianças. Muitos deles não terminavam a escola; tinham que ir trabalhar devido às más condições económicas das suas famílias. Alguns foram até abandonados pelos pais. Assim, o projeto que vos relatamos começou como uma forma de manter as crianças longe dos perigos do aterro.

“As crianças não sabiam nada de música e era muito difícil contactar os pais porque muitos deles não moravam com os filhos”, disse Chávez.

Fávio começou a trabalhar com as crianças em 2006, e a comunidade começou a perceber os efeitos que estas aulas tinham nas crianças. Houve até familias que se reuniram de novo, recebendo as crianças que antes tinham abandonado.

O fenómeno propagou-se e, cada vez mais e mais crianças queriam aulas de música. Mas, infelizmente, não havia instrumentos suficientes. Assim, Fávio e seu amigo Nicholas começaram a construir instrumentos com o que tinham em abundância, lixo.

Em 2012 foi criada a escola de música “Sons de Cateura” e com ela o projeto comunitário “Orquestra Reciclada de Cateura” e foi aí que o projeto passou a ter projeção mundial sob o lema “O mundo manda lixo, e nós devolvemos música.

A orquestra ensina atualmente música clássica a crianças e jovens que vivem naquela comunidade.

A gama de instrumentos que conseguem criar é incrível: violinos, violões, violoncelos, contrabaixos, flautas, saxofones, trompetes, trombones, instrumentos de percussão, etc.

Num lugar tão pobre, os instrumentos reciclados são a melhor opção. Na maioria dos casos, as crianças não têm um local onde possam guardar seus instrumentos. E um instrumento “normal” teria mais valor do que as suas casas, implicando dificuldades no acesso e risco no armazenamento. Foi assim que chegaram à conclusão de que esta seria a solução perfeita para ensinar música e manter toda a gente segura.

O projeto está em andamento desde 2006. A orquestra começou em 2012. Em 2016 estreou o filme sobre a mesma, e hoje a escola de música de Cateura tem seu próprio prédio para ensinar música a mais de 200 crianças daquela comunidade.

A orquestra fornece ao mundo pessoas melhores. Sabem muito sobre música e, mais importante do que isso, compreendem que até as sobras dos sonhos dos outros, como César, podem criar instrumentos, música e esperança.

 

Receita de Violino reciclado: uma lata de tinta, palete de madeira, uma bandeja de pizza e um garfo.