Iqbal Masih

Iqbal Masih nasceu em 1983 no Paquistão. A sua vida durou 12 anos sendo que foi assassinado na sua aldeia natal em 1995. 

Destes 12 anos, Iqbal passou 6, metade da sua vida como escravo e no entanto estamos aqui hoje a discutir a sua obra e o seu importante papel para a sociedade em que atualmente vivemos. 

É impressionante como uma criança paquistanesa conseguiu tanto em tão pouco tempo. 

Mas vamos começar pelo inicio. 

Iqbal nasceu Muridke, uma cidade perto de Lahore no Punjab,  no seio de uma família católica e  extremamente pobre. 

Fruto de uma sociedade em que nao se falava de direitos humanos ou direitos das crianças, quando a familia necessitou de pedir 600 rupias empresdatas (+/- 12 dollars) fe-lo a um industrial da zona. 

Hussein Khan era dono de uma fábrica que produzia tapetes e na qual muitas, muitas crianças trabalhavam sem o minimo de condições. Naquela zona do mundo, nos anos 80, era uma situação absolutamente normal.

Assim Iqbal, aos 4 anos, foi trabalhar para a fábrica de tapetes até conseguir limpar a divida da sua familia. 

Assim, todos os dias, antes do sol nascer, Iqbal metia-se a caminho para trabalhar durante 12 horas na fábrica de tapetes. Ele e as outras crianças que lá trabalhavam, faziam-no acorrentadas aos teares, e com as janelas fechadas para preservar as qualidades da lã. Isto traduzia-se em temperaturas muito altas durante todo o dia. 

Durante o primeiro ano, Iqbal nao foi pago sob o pretexto de estar a aprender. Qualquer erro resultava em multa, qualquer asneira resultava em castigo. 

Iqbal compreendeu ao fim de algum tempo que a sua divida não seria paga e por isso um dia rasgou um dos tapetes o que levou a que fosse severamente punido.

Cada vez que a sua divida estava perto de ser paga, algum evento surgia que aumentava a dívida. 

Em 1992 o supremo tribunal do Paquistão tornou ilegal o trabalho forçado, incluindo o trabalho forçado por causa de dividas. Ao saber disto Iqbal tomou a decisão de fugir. Conseguiu e a primeira coisa que fez foi ir à policia denunciar toda a situação. Recordo que nesta altura Iqbal era uma criança de 10 anos. A reação da polícia foi pegar nele e leva-lo de volta para a fábrica procurando receber uma recompensa por recuperarem um trabalhador foragido. Iqbal como punição foi pendurado de cabeça para baixo durante alguns minutos. 

Assim que conseguiu, voltou a fugir mas desta vez não foi à policia. 

Quando conseguiu finalmente fugir a divida da sua familia tinha passado de 600 rupias para 13.000 rupias. 

Iqbal juntou-se à Bonded Labour Liberation Front (BLFF) uma organização não governamental nascida na India com o objectivo de acabar com o trabalho forçado. 

Iqbal começou a ir à escola da BLFF e tornou-se um porta-voz desta organização entre 1993 e 1995. Em apenas 2 anos conseguiu completar estudos correspondentes a 4 anos. Mas era visivel que os 6 anos passados a trabalhar na fábrica tinham tido vários efeitos na saúde de Iqbal. Era bastante mais baixo do que as crianças da sua idade, cruvado, apresentava atrite, problemas renais entre outros. 

Durante este tempo ajudou mais de 3000 crianças a libertarem-se dos seus trabalhos forçados e expressou o seu desejo de seguir direito para poder ajudar ainda mais crianças que ainda não tinham conseguido libertar-se. 

Visitou paises como a Suécia ou os estados unidos partilhando a sua história e chamando a atençao para este problema pedindo ajuda para erradicar o trabalho infantil.

Ao receber um prémio da Rebook em 1994, o Reebok Humans Rights Award, no seu discurso comparou a o trabalho da BLLF ao de Abraham Lincoln no papel que tiveram na libertação das crianças enquanto chamava a atenção para os milhões de crianças que faltava libertar.

A 16 de Abril de 1995, no domingo de Páscoa foi visitar a familia em Muridke e foi lá que foi atingido mortalmente com tiros de caçadeira.

 

A policia nunca chegou a fazer uma investigação formal e ninguem foi preso por este crime. Iqbal tinha 12 anos. 

 

A BLLF atribuiu este assassinato à máfia dos tapetes como represália pelo trabalho ativista de Iqbal. 

 

Iqbal foi vitima de trabalho infantil, usado para pagar uma divida que nao era dele, sobreviveu, fugiu, ficou para lutar e salvou milhares de crianças e acabou cobardemente assassinado na rua, perto de casa. Tudo em prol de uma causa que era a sua e que hoje já deveria ter sido erradicada.

2021 é o ano internacional para a eliminação do trabalho infantil.

O objectivo 8.7 desenhado pelas Nações Unidas é: Tomar medidas imediatas e eficazes para erradicar o trabalho forçado, acabar com a escravidão moderna e o tráfico de pessoas e garantir a proibição e eliminação das piores formas de trabalho infantil, incluindo o recrutamento e uso de crianças soldados, e até 2025 acabar com o trabalho infantil em todas as suas formas.

Entre o ano 2000 e 2016 o numero de crianças em trabalho infantil foi reduzido em 94 milhões no entanto nos ultimos 4 anos a tendência inverteu-se e o numero de crianças em trabalho infantil aumentou 8.4 Milhões. Estima-se que o total de crianças sujeitas a trabalho infantil se situe nos 160 Milhões. Quase metade destas crianças vivem em África (72 Milhões), seguida da Ásia e Pacifico (62 Milhões). A grande maioria das crianças sujeitas a trabalho infantil no mundo, cerca de 70% do total, trabalham na agricultura, principalmente na agricultura de subsistência e na pecuária de pastoreio.

Esta inversão é preocupante e com a pandemia estima-se que adicionalmente 9 milhões de crianças estejam em risco devido à COVID-19. 

Assim a triste realidade do mundo é que uma em cada dez crianças é vitima de trabalho infantil, e uma em cada vinte tem um trabalho perigoso. 

No entanto a nossa sociedade está a agregar-se para que crianças como Iqbal possam ser simplesmente crianças em vez de terem de começar de pequenos a travar uma guerra que não é deles, nem nunca foi. 

Iqbal já cá nao está para continuar esta luta. A responsabilidade é nossa, a meta é clara, 2025 para a erradicação do trabalho infantil. O caminho está traçado. 

Agora cabe-nos a nós todos garantir que chegamos a 2025 sem que haja a necessidade de voltar a existir um Iqbal.