Manal Al-Sharif

 

A história de Manal Al-Sharif é uma história longa, cheia de bravura e está longe de terminar.

Ela tem sido uma voz ativa nos últimos 10 anos contra o governo da Arábia Saudita, país de onde é natural, em relação à forma como as mulheres são tratadas pelo Estado e pela sociedade.

O Reino da Arábia Saudita é um estado islamico e o sistema judicial é baseado na lei islamica (Sharia).

No século XXI, começam-se a ouvir algumas vozes contra a forma como este sistema trata as pessoas, as liberdades que lhes são permitidas e as rígidas leis do país que regem toda a sociedade.

Em 2019 Manal Al-Sharif disse:“Muitas pessoas estão com muito medo [de falar]… depois do assassinato de Jamal Khashoggi. Acho que tens duas opções: ficar quieta e ser morta, ou falar alto e ser morta”,

Como é que chegou aqui? Será ela uma inimiga do estado tão perigosa que faz sentido ela ter medo a este ponto?

O que é que Manal Al-Sharif fez para merecer este tipo de atenção do governo de um dos países mais ricos do mundo?

Tudo começou quando ela foi dar uma volta de carro em 2011.

Ao conduzir um automóvel, na Arábia Saudita, Manal Al-Sharif, uma mulher, infringiu a lei.

Tão simples como isso.

As mulheres não podem conduzir na Arábia Saudita. Sharif achou que esta poderia ser uma forma de começar uma transformação social.

No seguimento da Primavera Árabe e com o advento da internet e ferramentas como o Youtube, os protestos passaram a ganhar mais exposição.

Depois de publicar um um no youtube em que ela aparece a conduzir um automovel, esse video conseguiu mais de 700.000 visualizações. Isto fez Sharif brilhar e tornou-a num símbolo da luta contra este governo ultraconservador.

Não foi a primeira tentativa deste tipo de protesto. Em 1990, dezenas de mulheres conduziram em protesto. Foram presas, tiveram os seus passaportes confiscados, algumas perderam os seus empregos e foram libertadas no dia seguinte.

Voltando a 2011, o que levou ao video foi que várias mulheres, incluindo Sharif, iniciaram uma campanha num grupo no Facebook chamada “Ensine-me a conduzir para que eu me possa proteger” ou “Women2Drive”. O objetivo da campanha era que as mulheres começassem a conduzir em junho e, em maio, já tinham 12.000 utilizadores a manifestar seu apoio na plataforma.

Durante o vídeo declarou " Esta é uma campanha de voluntariado para ajudar as mulheres deste país [aprender a conduzir]. Pelo menos em emergências, Deus me livre. E se quem está a conduzir tiver um ataque cardíaco?" O resultado final foi que acabou detida pela polícia religiosa e libertada seis horas depois. Todas as suas contas das redes sociais foram excluídas ou alteradas. O vídeo foi apagado, mas os seguidores dela volatamra a publicar o mesmo. A mesma coisa aconteceu com a campanha de Facebook.

No dia seguinte, voltou a ser detida.

O movimento conseguiu chamar a atenção da comunicação social internacional e da Amnistia Internacional que imediatamente pediu sua libertação incondicional.

Foi libertada 5 dias depois.

O próximo passo de Sharif foi criar uma campanha no Twitter chamada “Faraj” para buscar a libertação de mulheres presas por pequenas dívidas que não conseguem pagar.

Ela pediu doações para que as dívidas pudessem ser resolvidas.

Um ano depois, em 2012, foi atribuido a Manal Al-Sharif o prémio “Václav Havel Prize for Creative Dissent” em maio desse ano. A Aramco, instituiçao onde Sharif trabalhava fez pressão para que ela ano fosse receber o prémio. Dado que ela fez a viagem e recebeu o prémio, acabou por ser despedida.

Ainda no mesmo ano criticou a iniciativa do governo saudita de informar os maridos por cada vez que as suas esposas ou dependentes viajam para fora do país. 

Sharif acabou por decidir sair da Arabia Saudita e ainda hoje vive na Australia onde se sente mais segura. Em 2019 acabou por apagar a sua conta de twitter que segundo a mesma:”um dia salvou-me a vida” mas se em 2011 foi o twitter que permitiu um discurso livre, hoje em dia as autoridades autoritárias da Arábia Saudita encontraram formas de condicionar o uso através de bots e outros métodos de moldar o discurso na plataforma. 

Este foi o percurso de Manal Al-Sharif. 

Depois do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, Sharif abandonou a esperança de que as coisas poderiam mudar a curto, médio prazo. Foi quando apagou as suas redes sociais e começou a recusar convites para palestras e tinha decidido por um ponto final na sua vida como activista. 

Mas depois “aconteceu Rahaf Mohammed al-Qunun”, disse, referindo-se à mulher saudita que se barricou num quarto de hotel na Tailândia. 

Rahaf, uma adolescente, fugiu do país em desespero e quando a tentaram deportar fechou-se no quarto de hotel onde estava ameaçando tirar a sua própria vida caso tal acontecesse.

Ao ver este desespero que ela tão bem compreende. Percebe que o silencio não irá ajudar nenhuma Rahaf e decide voltar ao activo. 

Sharif falou no 10º Summit “Mulheres no Mundo” onde afirmou “Cada vez que alguem me pergunta sobre politica, eu afirmo, é tão perigoso. I podia ser morta se voltasse, e eu tenho familia lá. Porque vivo num exílio auto-imposto na Austrália, eu posso falar um pouco mais.”

Pouco depois de abandonar o palco, Alia Al-Hathloul, irmã da activista Loujain al-Hathloul que está neste momento presa na Arábia Saudia, disse:”Durante muito tempo, eu acreditei que manter o silencio era a melhor forma de proteger a Loujain de maus tratos adicionais. Mas as injusticas continuam e nao tenho outra hipótese a nao ser falar, porque a minha irmã, nao pode.”