Peter Norman

 

Por causa do vírus COVID-19 hoje em dia demoramos 20 segundos para lavar as mãos.

Em 1968, Peter Norman usou esses mesmos 20 segundos para correr 200 metros. 20,17 segundos para ser mais preciso.

Ele ganhou a medalha de prata nas 68 Olimpíadas do México, mas ele foi muito mais do que apenas um medalhista..

Peter representava o seu país, a Austrália.

Era já o homem mais rápido da Oceania nesta distância. Além disso, tinha também participado dos Jogos da Commonwealth.

Ele foi tão rápido que antes da final Olímpica, durante as semi-finais, Peter bateu um novo recorde Olímpico.

Nas finais, o americano Tommie Smith foi fortissimo e foi o primeiro a conseguir fazer 200 metros abaixo de 20 segundos, estabelecendo um novo recorde Olímpico e Mundial. John Carlos, outro membro da equipa americana, ficou em terceiro lugar.

Smith e Carlos eram membros fundadores da iniciativa Projeto Olímpico para os Direitos Humanos (OPHR). Com o sociólogo Harry Eduards, a OPHR era uma organização que protestava contra a segregação racial nos Estados Unidos e noutros países (como África do Sul ou a extinta Rodésia) e contra o racismo no desporto.

A OPHR defendeu um boicote aos Jogos Olímpicos de 1968 no México. O boicote não se concretizou, mas isso não significava que eles não se conseguiriam expressar de outras formas.

E assim o fizeram!

E foi no pódio, que eles marcaram a sua posição. 

Quase 50 anos antes de Colin Kaepernick fazer o seu protesto tocando com um joelho no chão durante o hino nacional, para aumentar a conscientização em relação à luta contra o racismo, estes três atletas olímpicos o fizeram o mesmo mas num palco bastante mais grandioso e sagrado. Quando o hino nacional dos Estados Unidos começou, os dois americanos estavam descalços com osseus sapatos pretos ao lado deles, envergando meias pretas, que representa a pobreza. No fim do hino, silenciosamente cada um deles ergueu um punho com uma luva preta calçada em protesto mas com suas cabeças inclinadas em sinal de respeito. Tommie ergueu o punho direito, "simbolizando o poder dentro da América negra", enquanto o punho esquerdo de John Carlos "significava a unidade da comunidade". Tommie usava um lenço preto para a escuridão, e John usava um colar de contas ao pescoço para homenagear as vítimas de linchamento.

Os três atletas usavam o distintivo da OPHR, deixando claro que Peter Norman fazia parte do protesto. No fim houve vaias aos atletas no estádio. Naquela época, o punho erguido com a luva negra calçada era visto como a saudação dos pantera negra (Black Panther) um grupo que era reponsavel por mortes nos Estados Unidos.

Este protesto foi um escandalo para uma sociedade que passa por imensas mudanças, nomeadamente no que toca aos direitos humanos.

A Austrália era significativamente influenciada pela cultura americana e estava a passatr por mudanças na forma como se relacionava com outras raças, como por exemplo os aborígenes, na Austrália.

Antes da cerimônia, Tommie e John perguntaram a Peter se ele acreditava nos Direitos Humanos ao que Peter respondeu de forma imediatamente e com uma resolução corajosa: Sim!

Foi Peter quem deu a ideia a John e Tommie de partilharem as luvas, já que John Carlos se tinha esquecido do seu par de luvas no hotel. Pediu a um outro atleta um crachá da OPHR para ele o poder usar durante a cerimónia.

Como resultado direto, as carreiras destes atletas terminaram naquele momento.

No dia seguinte, Tommie e John foram suspensos e tiveram que abandonar o México.

Para os Jogos Olímpicos de 1972 em Munique, Peter Norman classificou-se treze vezes para os 200 metros e cinco vezes para os 100 metros. Porém, não foi convocado para a equipa nacional e nunca mais voltou a participar dos Jogos Olímpicos pela Austrália. 

Com os seus tempos de qualificação, ele teria sido medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Munique.

Peter e sua família foram condenados ao abandono e esquecimento na Austrália. Trabalhou num talho e noutros pequenos empregos.

Durante os Jogos Olímpicos de Sydney em 2000, Peter Norman foi convidado para fazer parte da equipa olímpica americana porque o seu próprio país não o quis convidar. Os Estados Unidos já na altura reconheciam a sua importancia e por isso fizeram o convite.

Um outro resultado da participção naquele protesto foi as duas amizades que ali nasceram. Peter, Tommie e John tornaram-se amigos para o resto da vida.

Em 2006, quando Peter faleceu, John e Tommie foram trasnportaram o seu caixão para a sua ultima morada.

Em 2012, finalmente, o governo australiano emitiu um pedido de desculpas póstumo a Peter Norman.

 

Peter poderia ter tido uma vida fantástica se tivesse condenado o protesto; isto chegou mesmo a ser a Peter de acordo com o relato do seu sobrinho. Ele nunca considerou sequer esta proposta. Peter afirmou, mais do que uma vez, que aquele foi o momento de maior orgulho da sua vida e que acreditava profundamente no que tinha feito naquele dia.

Se alguma dúvida houvesse, o pedido de desculpas de 2012 veio provar que Peter estava correto, ainda que demorasse 50 anos até as pessoas o conseguirem perceber. Ele sacrificou-se muito a ele e à sua família, mas não há qualquer dúvida de que ele estava do lado certo da história.

Tomar a atitude correta, normalmente, é mais difícil, mas, “o branco da foto”, como Peter gostava de dizer, nunca teve um qualquer dúvida sobre si ou sobre o que tinha fazer.

E fez!

 

Ainda hoje o recorde da Oceania para os 200 metros pertence a Peter Norman.

 

Eram pessoas antes de serem atletas e foi por isso que escolheram aquele palco para protestar. Nunca se tratou de misturar politica com desporto. 

Peter foi um atleta recordista, mas o que conseguiu como homem é incomparavelmente mais importante para nós como sociedade.