Sonita Alizadeh

 

O que é que farias com 9000$? 

Comprar meia dúzia de iPhones? Um carro usado? Umas férias de duas semanas? A família de Sonita queria comprar uma noiva para o seu irmão - e para isso iam vendê-la a ela.

 

Sonita Alizadeh nasceu em Herat, uma cidade rural no Afeganistão, em 1996 - precisamente quando o regime Talibã tomou o país de assalto, impondo de imediato uma lei muçulmana extremamente conservadora, a Lei Sharia. Entre outras restrições, as mulheres não podem receber escolaridade, trabalhar ou sequer sair de casa sem estar acompanhadas por um homem. Nascida numa família bastante numerosa, num meio em que as raparigas são vistas como pouco mais que um encargo financeiro, a sua vida adivinhava-se difícil. Segundo a própria, a sua infância pode ser resumida em apenas duas palavras: fome e medo.

 

Alizadeh (que significa “andorinha”) é rapidamente confrontada com a face mais cruel da sua realidade. Aos 9 anos perde o pai e ao mesmo tempo a mãe diz-lhe que lhe encontrou um marido. A lei proíbe que qualquer rapariga se case antes dos 16 anos (15, com autorização do pai), mas a realidade é outra, ainda hoje: cerca de 15% das raparigas afegãs casam antes dos 15 anos. A sua própria mãe casou com apenas 12 anos. Na altura, Sonita não é sequer capaz de compreender o que se passa devido à sua tenra idade.

 

Por sorte ou azar, o casamento não aconteceu, pois a família Alizadeh na mesma altura decide fugir para o Irão, tentando escapar à opressão Talibã. A única forma de passar a fronteira é subornar os guardas, que ameaçam sequestrar Sonita e a irmã, para as vender. Pela primeira vez, toma consciência de que, nesta parte do mundo, as mulheres são mercadoria. Já em Teerão, Sonita é deixada num centro para crianças refugiadas, onde aprende a ler e a escrever. Sem documentação, o único trabalho que consegue é a fazer limpezas no centro que a acolheu. É aí que ela conhece outras raparigas na mesma situação e começa a tomar consciência da real dimensão do problema.

 

É também aqui que ela descobre a sua paixão: a música. E há um estilo em particular que lhe prende a atenção - o rap. O ritmo frenético e a revolta sempre presente ressoam no seu âmago. Há dois artistas em particular que a movem: o rapper iraniano Yas, e o bem conhecido Eminem. Inspirada pelo sofrimento e injustiça - não só o que sofre e sofreu, mas também tudo o que está à sua volta - Sonita começa a escrever poesia e faz pequenos espetáculos secretos para as suas amigas.

 

A maré parece estar a mudar para Sonita. Em 2014 participa num concurso baseado nos EUA para criar canções que apelassem ao povo afegão para ir votar nas próximas eleições. Sonita ganha o concurso e recebe um prémio de 1000$ - e de imediato envia o dinheiro à sua mãe, que tinha voltado para o Afeganistão. Por esta altura, Sonita recebe uma visita da mãe. Está em êxtase. Corre para abraçar a mãe, enquanto as lágrimas lhe correm pela cara. Não se viam há mais de três anos. Mas a visita não era assim tão inocente.

 

9000$. Este é o preço que a mãe de Sonita acha que vai conseguir por ela. É também o dinheiro necessário para que o seu irmão compre uma noiva. Diz-lhe que tem de voltar para o Afeganistão. “Há um homem, e está à tua espera”. Sonita, incrédula, pergunta à mãe: “Como consegues vender a tua própria filha?”. A mãe, sem estremecer, responde: “É a tradição”. E assim o é, aliás, ainda hoje.

 

O cenário é negro. Mas Sonita não desiste.

 

Uns tempos antes, ao tentar conhecer outros artistas e músicos, Sonita chamou a atenção da cineasta iraniana Rokhsareh Ghaemmaghami. Também ela uma mulher artista, a história de Sonita inspirou-a e decidiu fazer um documentário - o filme “Sonita”, internacionalmente aclamado pela crítica e galardoado em vários festivais, que seguiu o dia-a-dia de Alizadeh durante três anos.

 

Confrontadas com a péssima notícia, uniram esforços. Rokhsareh pagou 2000$ à mãe de Sonita, uma forma de “comprar” mais seis meses de liberdade para a jovem de 16 anos. Sonita usou este tempo o melhor que pôde: compôs a música “Noivas à venda”, baseada na sua experiência e na de muitas outras raparigas que conheceu. Rokhsareh gravou o videoclipe da música e puseram-no no YouTube. Este simples ato foi, por si só, extremamente perigoso, já que no Irão é proibido mulheres cantarem a solo sem uma autorização expressa do governo.

 

A música foi uma sensação imediata. O vídeo, que mostra Sonita num vestido de noiva, com nódoas negras na cara e um código de barras na testa, não só fez sucesso entre as mulheres afegãs como chegou a todos os cantos do mundo. Em poucas semanas, Sonita foi contactada pelo Grupo Strongheart - uma ONG americana que ajuda artistas que usam o seu meio de expressão como forma de alerta para problemas sociais - que lhe ofereceu uma bolsa de estudos completa nos Estados Unidos.

 

Depois de, a muito custo e sob imenso secretismo, voltar ao Afeganistão para conseguir a documentação necessária para viajar, Sonita finalmente conseguiu. Chegou aos Estados Unidos e frequentou uma instituição de Ensino Secundário especialmente dedicada ao ensino de música. “No início foi muito difícil”, diz-nos Alizadeh, “Tudo o que sabia dizer em inglês era olá e adeus. Mas agora tenho as notas mais altas da turma.

 

Hoje, Sonita é uma mulher feliz. Estuda no Bard’s College em Nova Iorque, e divide o seu tempo entre a faculdade, concertos e o seu ativismo. O seu novo sonho é poder estudar Direito em Harvard, para voltar ao Afeganistão e começar a lutar pelos direitos das mulheres no seu próprio país. Não guarda rancor à sua mãe. Percebe que ela também foi vítima da misoginia sistémica: “Toda a gente lhe disse que por ser mulher não tinha valor. Foi o que a família lhe ensinou, e era nisso que acreditava. A minha música era um pesadelo para ela. Hoje, é a minha maior fã. A minha família mudou de ideias. E se eu consegui mudar a minha família com a minha música, então talvez consiga mudar o Mundo”.

 

Sonita continua solteira, por opção. Hoje não há nenhum homem à espera dela. Só o futuro, e será ela a traçá-lo.